sábado, 7 de novembro de 2009

Sentido

Então a gente taí, viva. Não parece, e eu juro que entendo todos os leitores que fugiram daqui, eu também fugiria. Eu fugi.

A questão é que hoje eu estive pensando que faz tempo que não escrevo meus textos, não posto no blog, não visito os blogs amigos, enfim, faz tempo que não vivo essa plena vida de blogueira, né? Mas tá.

Só queria dizer para esses meus dois leitores que eu tô bem. Entre mortos e feridos sempre eu me salvo, e eu tô bem. Cabeça cheia, coração e alma vazias, mas né... essa sou eu! E talvez por isso eu tenha evitado aparecer por aqui, para não reclamar demais, porque se tem uma coisa que eu odeio fazer, é reclamar da minha vida, ficar parecendo uma coitadinha.

E odeio fazer o blog diarinho, mas tá. Não é esse o ponto.

O ponto é.

A menina achou que não tinha mais sentimento nenhum dentro dela. Que se tornara seca, oca, vazia, incompleta. Que nada nem ninguém iria superar a perda que ela mesma provocara. A menina achou tanta coisa, que achou o sentido de novo. Achou o que faz sentido, apesar de não fazer sentido, e por causa de tantos paradoxos, a menina resolveu... deixar.

Deixar como tá, pra ver como é que fica. Ver se as coisas que ela pensa vão embora, ou se vão permanecendo e fazendo crescer a falta de sentido.

A menina sou eu. Eu não escondo mais quem eu realmente sou. Eu não escondo mais a minha falta de sentido. Eu só escondo esse turbilhão de sentimentos, porque apesar de fazerem muito sentido para mim, não faz sentido para os outros.

Sentir, sentido, sensação, sem par. Uma menina sem par. E nem por isso infeliz.

Se tem algo que não experimentei nessa vida, é o sentido da infelicidade. E assim pretendo permanecer, apesar de toda falta de sentido.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fate

Devo ser o único a sorrir quando a chuva começa a cair em São Paulo.

Chove, alaga tudo, trânsito complica, quem costuma chegar em casa às 19h, chega às 23h, e assim vai a sequência da vida. Eu não ligo pra nada disso. Quando começa a chover, eu começo a sorrir. Sorrio e não vejo a hora de sair daquela repartição chata, monótona, sair da frente do computador e correr pra chuva, como eu fazia quando era moleque.

Pisar na poça d’água e ver as pessoas irritadas porque a água do chão respingou na roupa. E sair correndo e rindo, como se nada mais me preocupasse. Queria bater palmas na chuva e rir com o barulho que as mãos molhadas se batendo faz. Eu queria também fazer peixinho na quadra descoberta na esquina da rua da minha casa. E mergulhar como se estivesse mergulhando no mar, sem me preocupar em sujar ou rasgar a roupa.

Leptospirose nenhuma iria me preocupar, eu iria pisar com muito gosto em cada poça d’água que encontrasse próxima à qualquer boca-de-lobo. Arriscaria fazer um barquinho de papel e deixá-lo-ia navegar nas ruas alagadas.

Nesse barquinho, eu seria capitão, e seria um capitão justo, trabalharia como os demais, e dividiria todas as minhas garrafas de rum. As festas seriam diárias, eternas, todos cantaríamos bêbados e ficaríamos aliviados com a chuva, porque ela mudaria as marés, e mudaria nossos destinos. As sereias nos encantariam e isso não seria ruim como nas estórias, elas nos fariam felizes por minutos, horas e então continuariam sua rota pelo mar.

Nossa tripulação jamais precisaria de descanso, porque nossa vida seria navegar, descobrir novas terras, novas aventuras, seria um eterno esforço em não deixar o barco afundar. Bêbados, excitados, felizes. Navegadores.

Meu barquinho de papel, no entanto, não é um barco de verdade. E eu vejo ele, se desfazendo na chuva, continuar seu caminho nas águas de um esgoto qualquer.

[o desafio da vida é mudar o destino das coisas.]

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Think about it

Quantas vezes você conseguiu parar de pensar na vida? Cinco minutos que seja, ficar sem pensar em absolutamente nada?

Era tipo um sonho, eu caminhava pelas ruas e de repente, parava de pensar. Assim, do nada. Vinha um branco, minha mente esvaziava, e eu conseguia andar e não pensar. Olhar para as vitrines e não emendar ideias de compras ou até mesmo da inutilidade das vitrines. Ver as pessoas vindo em minha direção e não ficar pensando no que será que elas estão pensando. Será que elas também estão pensando no que será que eu estou pensando? Ou pensam se eu estou pensando no que será que elas estão pensando? Se eu penso que elas estão pensando que eu estou pensando no que elas estão pensando?

Daí atravessar a rua, olhar para os carros e não pensar se eu seria mais feliz tendo um carro, sem ter que andar a pé, por quilômetros diários [que exagero, minha mente anda bem mais do que isso, porque ela pensa demais]. Não machucar mais o pé, por não saber escolher o calçado com o qual eu vou caminhar. Deixar de caminhar com fúria, por ter pensamentos furiosos que alternam com pensamentos doces.

Não pensar nem na sede que me atormenta no meio do caminho, e não ter que pensar que eu bem poderia ter comprado uma garrafa d'água bem gelada, para não sofrer esse tormento até chegar ao meu destino. E pensar que de qualquer forma, eu vou ter que comprar uma garrafa d'água, porque agora vivemos num mundo onde até a água é cara. Um bem natural, e eu tenho que pagar para ter acesso a ele. É um absurdo, mas meus pensamentos devaneiam por aí.

Não olhar pra loja de chocolate. Definitivamente NÃO OLHAR pra loja de chocolate. Tenho que controlar em pensamento até praonde eu olho ou deixo de olhar.

Queria parar de pensar, por cinco minutos. Mas é aí, né, até pra parar de pensar, eu tenho que pensar que quero parar de pensar. Um paradoxo do pensamento. E ainda dizem que pensar não enlouquece. Ahan.

De qualquer forma, eu ainda acho que caminhar pelas mesmas ruas, todos os dias, me fará um dia parar de pensar no tanto de coisas que eu tenho pra pensar. Ou pelo menos me ajuda a não despejar todos esses pensamentos na cabeça dos outros, porque os outros também pensam muito, em muitas coisas. E esse mundo de coisas que os outros pensam, juntam-se aos meus pensamentos e com certeza vão parar em algum lugar.

O que mais me irrita dos meus pensamentos é que eu não consigo simplesmente esquecê-los. Eles se repetem e se juntam aos novos pensamentos, fazendo com que eu implore por cinco minutos de paz.

Cinco minutos sem pensar.

Você já conseguiu parar de pensar?

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Conto

Eu escrevi um conto.

Um conto ótimo, que tinha idas e vindas, não falava de amor, nem de amizade, nem dos outros demais sentimentos tão importantes nessa vida. Meu conto não falava sobre sentir, não falava sobre viver, mas era um conto, anyway.

No meu conto eu não falava sobre ninguém em particular, nem sobre mim. Não falava sobre a minha vivência com as pessoas, como elas me alegram ou me machucam, como elas me curam. Era um conto, na verdade, que não falava sobre pessoas, de qualquer cor, tamanho ou religião, mas era um conto, anyway.

Este conto, olha que engraçado, também não falava sobre experiências. Não contava histórias, não narrava fatos, não tinha uma moral, e, sinceramente, não tinha início, meio e fim. Parecia uma coisa meio jogada assim, na sorte, que aconteceu. E mesmo sem nenhum indício de tempo ou espaço, era um conto, anyway.

Não falava sobre tecnologias ou coisas que existem, não falava sobre coisas inventadas, tampouco. Uma mistura de ambos, talvez, um toque de realidade e de imaginação. Porque minha imaginação sempre vai longe, em qualquer texto que eu resolva escrever. Mas esse conto era especial, porque a realidade e a imaginação estavam tão misturadas, tão pertencentes uma à outra, que não se diferenciava. Mas hey... de qualquer forma, quer você goste da mistura ou não, era um conto.

Um conto sem valor, sem palavras bonitas, sem apreço, sem qualidades e sem defeitos. Sem uma moral pra história, sem um sentido para existência e que também não procurava um sentido para existir. Um conto que muitos achariam tão difícil de acreditar no que estava escrito ali, mas aconteceu. E não aconteceu, na verdade, a mistura de realidade e tudo mais.

O meu conto tinha saudade. Uma saudade gigante e inexplicável, uma saudade dolorida, uma saudade forte, apertada, parecia sufocar cada palavra ali escrita. Saudade de existir, sem nunca ter existido. Saudade do que foi, sem nunca ter sido. Saudade do que sentiu, sem nunca ter sentido.

A coisa mais triste do meu conto é que ele ganhou vida própria e saiu por aí. E sinto falta do meu conto, porque ele foi o mais perfeito que eu já escrevi.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Empty

Peguei o metrô já vazio, já não era hora mesmo de mais ninguém estar na rua. Último metrô do dia, meia-noite e lá vai cacetada, e por isso muito me estranhou a sacola vazia, abandonada, no banco ao lado do que escolhi pra sentar.

Era uma sacola comum, como tantas outras sacolas, dessas de lona, porque precisamos preservar o planeta e tal. Engraçado era que tinha inclusive uma mensagem dessas na sacola: "preserve o planeta". Tá na moda cuidar do planeta. Mas a pessoa que abandonou a sacola no metrô definitivamente não se importava muito com a natureza. Largar a sacola assim, vai saber se alguém vai levar até o lixo, ou se vai pegar de presente.

A curiosidade humana... claro que eu olhei dentro da sacola! Certifiquei-me antes de não haver ninguém olhando, porque ninguém quer se passar por curioso, ou trombadinha. A sacola vazia no metrô vazio não foi a maior surpresa da noite: surpresa de verdade foi encontrar cinco notas de R$ 100,00 soltas lá dentro.

Olhei novamente para os lados, esperando alguém dizer "pegadinha!", mas não. Olhei a sacola e lá estavam elas, as cinco notinhas azuis, sorrindo para mim, quase como que pedindo "oun, me leve com você, preciso de um lar, de pais, ou de uma carteira". Cinco notas que resolveriam a luz cortada do meu apartamento, cinco notas que resolveriam o aluguel atrasado, cinco notas que resolveriam a vontade de tomar uma cerveja gelada e esquecer todos esses problemas.

As cinco notas azuis sorriram novamente.

Larguei a sacola no banco vazio e sentei do outro lado do metrô. Entrou um casal na estação seguinte, mas eles estavam distante, e muito atarefados em procurar algo dentro das calças um do outro, não estavam ligando muito praquelas cinco órfãs dentro da sacola. Dali duas estações eu iria descer, precisava me decidir rápido.

Pego as cinco notas, sabendo que elas não me pertencem e que, um dia quem sabe, eu iria me arrepender? Ou deixo-as largadas ali, para o próximo que aparecer, e que, provavelmente, não terá uma consciência tão fudida quanto a minha.

[o barulho do trem é algo que me entristece profundamente. vou acompanhando aquela sequência diabólica e formando uma música na minha cabeça. tento adivinhar o que se passa na cabeça dos outros passageiros e só encontro olhares perdidos, movimentando-se na cadência daquele barulho ensurdecedor. o barulho do trem, é inconfundível. é como o cheiro de alguém que a gente gosta: a gente nem quer lembrar na maioria das vezes, mas o cheiro impregna. o barulho do trem fica. fica e me entristece]

Chego na estação destino. O casal ainda está se descobrindo anatomicamente. Nem percebem que eu desço do trem, com cinco notas a mais do que eu subi. A sacola permanece, vazia, esquecida no banco vazio do metrô vazio... Segue apenas com um bilhete escrito às pressas, quase que vergonhoso.

"Desculpe"

[a imagem foi copiada daqui]

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O dançarino de uma perna só (final)

Tinha um olhar estranho que a acompanhava enquanto fazia a meia volta. Não era um olhar de ódio, não era um olhar de repulsa, era apenas um olhar sem sentimento. Um olhar que não a admirava, não se emocionava com sua dança. Um olhar que também não era de desdém. Um olhar anulado de qualquer sentimento. E isso doía na menina que vivia dentro da mulher. A mulher que dominou a menina já não mais se importava muito. Roteiro de filme, com certeza. Mas a gente sabe que não era um filme, porque nem a menina e nem a mulher choraram. Elas há muito tempo não esperavam mais nada do homem de uma perna só.

Quando pequeno, ele sonhou em ser bailarino. Sonhou com o palco, com os aplausos, com as luzes, com o encantamento. Ele sonhou em pegar a mão da menina e bailar com ela na rua. Sonhou em grandes viagens, sonhou que os dois seriam aplaudidos por multidões em todo o mundo. Sonhou que seu pai não mais teria vergonha da perna ausente, sonhou que poderia dar à mãe o orgulho que ela sempre esperou sentir do filho perneta. Ele sonhou com um bailado, e por alguns momentos, ele teve o bailado em suas mãos.

[ele rodopiava a menina, e fazia passos mais lentos e desequilibrados. Ele apoiava a mão esquerda na cintura da menina, e segurava a sua mão direita. Pedia sempre calma, mas conseguia, fazer um, dois pra cá, um, dois pra lá. E rodopiava e a via girar, rodar a saia e sorrir um ângulo de 360º.]

E ver a menina adulta, dançando, sozinha ou acompanhada, mas nunca por ele, o fazia sentir o nada. O nada que fora a dança de infância, o nada que foram as inúmeras quedas, o nada que foi o grito da garota. VOCÊ NÃO PODE DANÇAR. Qualquer pessoa poderia ter dito isso a ele. Qualquer. Deus poderia ter descido de sua divindade e gritado isso pra ele. O demônio poderia ter vindo das profundezas infernais e berrado isso em seus ouvidos. Ele ouviria toda a humanidade gritando para ele, para o resto da vida.

Ouvir a voz da menina, irritada, sem paciência, sem vontade, desistente. VOCÊ NÃO PODE DANÇAR.

Todas as vezes que via a mulher que ela se tornara, ele lembrava dessas exatas palavras. E não sentia ódio, não tinha raiva alguma da menina, nem da mulher. Ele sempre fazia questão de vê-la dançar, e também não era por amor, por vontade de dançar junto, não era pela amizade, não era pelo que sobrou de sentimento após tantos anos. Tudo o que existia dentro dele, quando a menina-mulher rodopiava no salão, era o vazio. O vazio o acompanhou por toda a vida, e ele derramava litros de vazio no coração da menina, em cada dança, em cada volta, em cada sorriso de 360º.

A menina queria brigar com a mulher que dançava, vamos, convide-o mais uma vez, ele já terá esquecido. A mulher sabia que ele nunca esqueceria. A menina insistia, e a menina fez a mulher chorar por muitas vezes, por muitas danças. Mas a mulher não cedia. A mulher silenciou a menina. E não adiantava ela berrar, chorar, gritar, implorar pelas desculpas. Nem a mulher, nem o menino estavam mais interessados em desculpas.

VOCÊ NÃO PODE DANÇAR.

O homem sempre soube disso. O menino não precisava saber. O menino não estava mais lá. Adormeceu, talvez para sempre, antes de ouvir a menina gritar. Adormeceu quando o homem de uma perna só acordou.

Com a certeza de que nunca poderia dançar. E pôde viver bem com essa verdade. Porque sua vida tinha tudo para ser um filme. Mas a impressão é de que tinha sido apenas um sonho...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

I am so sorry...

Eu ando ausente de postagens, de comentários, de tudo. Tô mais on no twitter, e quem me acompanha, percebe que alguns sentimentos não estão fáceis de lidar. Não está nada fácil de lidar.

Eu não consigo mais escrever, e isso me deixa perturbada, afinal, eu ADORO escrever. Não consigo comentar nos blogs que eu tanto gosto, e por isso também peço desculpas. Peço desculpas se deixei na expectativa, peço desculpas por não estar tão presente por aqui, e saibam, essas desculpas são muito mais internas do que externas.

Então, por enquanto, eu decidi... deixar assim. Quando eu conseguir de novo, eu volto. Se eu conseguir voltar. Isso definitivamente não é um abandono de blog. É só um tempo, que eu prefiro lutar contra tudo o que eu sinto internamente, e não expor mais nada pra ninguém. Quando eu estiver curada disso, aí eu volto. Não vai demorar.

Vai passar rápido.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O dançarino de uma perna só (2)

Um garoto e uma garota estão sentados na calçada em uma tarde ensolarada. O céu já está com aquela cor alaranjada, e logo eles terão de se separar, cada um pra sua casa, porque é hora de jantar, e pai e mãe ficam bravos quando a demora aumenta. A menina se levanta, ensaia um bailado, e estende a mão para o menino, convidando-o a se levantar e juntar-se a ela. Roteiro de filme, com certeza. Só não é um filme, porque o menino não levanta. Ele deixa a menina com a mão estendida e a lembra de uma coisa que é óbvia para quem o conhece: "eu não posso dançar."

Ele recolhe a muleta, faz um esforço já comum à sua única perna. Fica em pé, encara a menina nos olhos e diz novamente "eu não posso dançar". Ela é insistente, ainda está com a mão estendida. O garoto só vira as costas e vai para casa. A menina, deixada para trás, finalmente cede, deixa a mão cair ao lado do corpo, abaixa o olhar e vai embora também. Ele vai dançar, ela sabe que vai.

O menino que sonhava em ser dançarino já não sonha mais. Sua única alegria é ver a menina dançar, e ironicamente, essa é sua maior tristeza também. O professor de dança da menina quase riu quando o menino disse que também queria aprender a dançar. A sutileza passou longe quando ele apontou para o vazio e deixou solta no ar a frase que todo mundo pensava, mas não dizia para o garoto: "tá faltando alguma coisa aí pra você dançar, não?".

Sim, faltava. Faltava o mundo entender que não se destroi sonhos por causa de uma perna a mais ou a menos. Faltava as pessoas se desafiarem, assim como fez o menino, e desafiarem as velhas ideias, e se atreverem a pensar em um bailarino de uma perna só. Faltava ela criar coragem e ajudá-lo. Ela criou. Mas ele perdeu a coragem que tinha.

Agora ela passava todas as tardes com ele. Às vezes sentavam na rua e contavam quantas pernas passavam em frente à casa dele, às vezes ela dançava e ele observava, até ela estender a mão e a cena se repetir. Inevitavelmente, ele dizia a mesma coisa. "Eu não posso dançar". Vira de costas. Vai embora. Às vezes ela ficava sentada na calçada, e ele demonstrava como tinha facilidade para fazer as mesmas coisas que as pessoas de duas pernas tinham. Nessa hora ele se sentia encorajado a tentar novamente.

Mas vinha à mente o professor, e "tá faltando alguma coisa aí pra você dançar, não?". E então ele virava e ia embora.

Foi numa dessas demonstrações que a menina o desafiou. Ele estava pulando amarelinha com a menina, ela parou de pular e o desafiou. Ela só queria uma coisa, apenas uma coisa, uma pequena demonstração de que o menino de uma perna só poderia ser melhor do que a menina de duas pernas.

"Dança comigo. Só uma vez."

Ele parou de pular e olhou nos olhos da menina. Os olhos dela dançavam em torno dos seus. A tarde não era ensolarada, mas era um cinza acolhedor. Uma rua silenciosa, raridade para uma tarde de julho. Ela repetiu as palavras mágicas.

"Dança comigo. Só uma vez."

E estendeu a mão para o menino.

Dessa vez, a mão dela não ficou sozinha no ar.

[continua...]

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O dançarino de uma perna só (1)

Um garoto sonha em ser dançarino quando crescer. Parece até roteiro de filme, a família não apoia, os vizinhos acham estranho, o menino vive a dançar em qualquer lugar que se apresente uma plateia. Roteiro de filme, com certeza. Se, e somente se, o menino não fosse perneta. Ainda criança, teve uma perna amputada por um acidente na rua. A família alegava negligência médica, mas também não correu atrás dos seus direitos.

E engraçado é que o sonho do menino de ser dançarino começou muito depois dele sofrer o acidente. Quando ainda tinha as pernas boas, ele não pensava muito no que queria ser, mas tinha que ser alguma coisa com o mar. Mergulhador, marinheiro, pescador, salva-vidas. Ele gostava muito do mar, e queria trabalhar olhando pra imensidão azul, todos os dias. E então veio o acidente, e ele sabia que ainda poderia viver no mar, mesmo sem uma perna.

Aí ele viu uma menina dançando. Na rua, um dia, era noite, ela voltava de algum curso ou concurso de dança, e estava acompanhada de seus pais. Dava para ver a animação no rosto da menina, contando cada um dos passos que efetuara, e como todos admiraram, e ela repetia os passos pela rua. Dançava leve, como que flutuava no ar. Seus cabelos subiam e desciam, pareciam acompanhar os braços e pernas e corpo que se lançava e voltava ao chão com graça. E ela girava, e girava, e girava, e girava, e parecia que o planeta obedecia aos seus giros graciosos, e acompanhava seu dançar.

Nessa hora o menino decidiu: eu vou ser dançarino.

Parece óbvio que, pela falta da perna, a família deveria cortar esse sonho desde o princípio. Ele dividiu esse sonho primeiro com a mãe. O apoio foi total e irrestrito. A mãe dividiu com ele sua imaginação, que já via o filho em um palco iluminado de grandes teatros da cidade, quiçá fazendo turnês pelo mundo. Primeira providência seria uma escola de dança.

O pai chiou um pouco, o fez lembrar da perna inexistente, o menino nem quis saber. Disse que seria um dançarino, e que o pai teria que ajudá-lo. Os irmãos naquele ar blasé de "whatever" não fizeram nem zombaria, nem piadinhas com as quais ele estava acostumado.

O menino que queria ser dançarino aguardava todas as noites, ansiosamente, pela menina dançarina. Ela reapareceu na rua somente um mês depois, da mesma forma que a vez anterior: dançarina, a pular, a sorrir, a deixar o ar em volta mais leve. Eles já haviam passado do seu portão, quando ele gritou "hey, menina!". Ela ainda voltava de um pulo no ar, e ele gritou de novo "menina!".

Ela parou e olhou pra trás, e viu o menino apoiado no portão de sua casa, muleta encostada em um canto do quintal. Olhou para os pais, que consentiram com um olhar que ela voltasse para mais perto do garoto. Ele sorriu quando ela chegou perto, e lhe disse "eu serei dançarino".

Ela nada disse.

E ele repetiu: "quando eu crescer, eu vou ser dançarino".

E ela lançou-lhe um sorriso, um lindo sorriso de olhar. Deu uma pirueta, deixando os cabelos bailando no giro, e foi, pulando, animada, voltando para perto dos pais. Ainda ouviu o grito de felicidade do garoto "eu vou ser dançarino", mas não ouviu a sua primeira tentativa frustrada de girar o corpo em volta da única perna.

O garoto caiu. E não chorou.

[continua...]

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tão fácil

Quando você olha pra um casal de amigos, tudo parece fácil. Quando você olha pro seu irmão que nunca quis casar, e de repente encontrou o amor da sua vida, e agora vai aumentar a família, tudo parece fácil. Quando você vê aquele amigo que foi conseguindo crescer na empresa passo a passo, tudo parece fácil.

É chato quando tudo parece fácil para os outros, e para você parece tão difícil. Arrumar um bom emprego, descobrir a profissão dos seus sonhos, ser feliz no trabalho, ter muitos amigos, se dar bem com a família. Parece que pros outros é simplesmente... fácil. E você sofrendo a cada Natal, a cada mudança de emprego, a cada vestibular prestado, a cada novo conhecido que você agrega.

Tudo parece muito difícil. Viver parece difícil.

E então você encontra. O emprego que parece ter sido feito para você, o amigo instantâneo e perfeito como aquele miojo sabor galinha caipira [que tem sabor de qualquer coisa, menos de galinha caipira], na hora que você tanto precisa. Um dia você chega em casa com cara de cu e sua família te recebe com um abraço, sem nada questionar, e ainda te faz pipoca e chocolate quente. E você conhece aquela pessoa com quem tudo parece tão fácil, o entendimento, as risadas, a intimidade... até o silêncio parece fácil.

Mas aí você, neurótico ou neurótica que é, pensa "tá tudo tão fácil, aconteceu alguma coisa". E não aceitamos a facilidade e a simplicidade da vida por medo. Medo de que as coisas não sejam assim tão fáceis. Medo de aceitar alguém novo na nossa vida. Medo da decepção, das lágrimas, do sofrimento, das noites solitárias, medo do chocolate frio ou do abraço vazio no travesseiro. Por medo, deixamos que as coisas fáceis se transformem em coisas difíceis.

Por medo, deixamos de amar as coisas fáceis e passamos a idolatrar as difíceis. Passamos a considerar o difícil mais confortável, mais cômodo, mais de acordo com o que merecemos, sem nem saber que tudo é realmente tão fácil e tão simples, e que o nosso medo é que complica.

É fácil amar, fácil aceitar sua família, fácil fazer novos amigos, fácil gostar do seu emprego, ou procurar um emprego que você gosta. O primeiro passo é acreditar. Se você acredita, o segundo passo, que é correr atrás daquilo que você quer, se torna tão simples e prazeroso, que quando você conseguir, você vai falar para aqueles que perguntarem: "até que não foi tão difícil. Eu apenas simplifiquei o que parecia impossível".

E é isso, você tem simplificado coisas que antes, para mim, pareciam impossíveis. Simplificou o gostar, e gostar é apenas isso. Eu gosto. Não posso fazer muita coisa contra isso, o máximo que eu posso fazer é gostar. Goste você de volta ou não. É simples, eu continuarei gostando. Talvez de um jeito diferente, mas simples, do jeito que você me mostrou que pode ser simples. Simplesmente gostar.

Nada muito além nem muito mais complicado que isso.

"'Cause when I'm with you, it seems so easy..."