Pra sempre
A pedra passou da mão direita pra mão esquerda, o olhar baixou para as mãos e sorriu. Quem a visse nas ruas assim, com uma pedra na mão, andar ritmado, já imaginava: era a vingança quem estava comandando sua mente. Quem via de fora, quem olhava a mão fechada sobre a pedra já imaginava o sangue escorrendo, a vidraça estilhaçada, o amor ferido e acabado. E ela riu com esse pensamento, e não fosse a pessoa que era, ensaiaria um passinho à la dançando na chuva.
A chuva apertou, o passo não. A roupa colando no corpo já dificultava a caminhada, mas e daí? Não tinha pressa, porque não tinha como apressar aquele momento. Cada esquina virada, cada rua percorrida, e em todos os momentos lembrava da pedra, destruindo seu espelho e anunciando sete anos de azar. O xingo ["FILHODAPUTADESGRAÇADO!"], correr pra janela pra descobrir quem era o idiota, e a surpresa de ver correndo rua abaixo a silhueta tão conhecida.
É um grito que abafa na garganta, porque a curiosidade venceu toda a raiva. Imaginar o fim, e saber que a pedra simbolizava apenas um começo. Voltar pra realidade e perceber que a chuva apenas deixou a ideia mais clara em sua mente. Deixou a pedra em cima da penteadeira por dez dias. O telefone que não tocou, a campainha que não berrou.
A pedra que não encerraria um assunto, apenas começaria. Ideias desconexas, o fim da chuva, e então ela se vê parada na porta da casa dele. FILHODAPUTADESGRAÇADO. Ela riu; não deixava de ser uma vingancinha. Mas a vida estaria toda pela frente, para a reconciliação.
Pega a meia branca e a caneta preta no bolso, rabisca qualquer coisa na meia, coloca a pedra dentro. Conta as janelas da casa e percebe que vai ter que mirar muito bem para não acertar a janela errada. Olha para os lados, não vem ninguém na rua. Já é noite, e as pessoas estão em casa preparando o jantar e assistindo a novela das oito.
Para. Que vislumbre de vida de merda é esse? Não, definitivamente não seria esse o futuro. Tira a pedra da meia, rabisca mais alguma coisa, coloca a pedra na meia. Dá um giro, dois e arremessa: é como se estivesse nas Olímpiadas, modalidade arremesso de pedra. O dela foi certeiro, medalha de ouro. O estilhaço, vidro quebrando, um grito que vem de dentro da casa. "INFELIIIIIZ!", mas ela já não tá vendo mais nada. Desceu a rua correndo, e sorrindo.
Ele não viu quem era, mas sabia o que era. Um medo do que estava para ler, uma vontade de adiar mais o momento, mas a sorte e a pedra foram lançadas há uma semana.
[você quer ser o meu 'para sempre'?]
A dúvida, o medo e a incerteza rondaram dez dias. Uma pedra que não foi devolvida. A sorte que quebrou sua janela. E explodiu um coração em dezenas de mini-sorrisos.
[Aceito, se você for sempre o meu agora. sem passado e sem futuro.]




