Duas
Antes, há bem pouco tempo, eu era determinada. Eu queria alguma coisa, pá pum, ia lá e fazia. Eu não cansava. Se eu precisasse ficar dias sem dormir, eu ficava, tinha uma força dentro de mim que não deixava eu dormir, sequer me cansar, sem ter realizado tudo o que eu precisava realizar. Eu não sentia dor. Física ou sentimental, eu não sentia nenhum tipo de dor. Segurava a bronca, fosse qual fosse, e ainda ajudava a resolver.
Essa mulher? Sumiu.
Eu agora sou uma menininha, fraca, indefesa, chorona. Sou incapaz de resolver qualquer problema, e não sei como agir diante de qualquer situação. Pensar rápido? Essa menininha não consegue. Ela prefere se encolher e reclamar da vida, esconder-se do mundo e lamentar a falta de sorte. Essa garotinha boba aceita o que o planeta oferecer. Não corre atrás daquilo que quer, não corre atrás dos seus sonhos. Aceita de bom grado o que acontecer, se foi bom, legal, se não foi bom... "eu merecia".
Uma menina estúpida, que se deixa moldar pelo que os outros acham que ela são. Essa menina tem medo, muito medo. De ganhar e de perder, de conseguir e de tentar. Tem medo de ouvir e medo de falar. Medo do que pensa e do que os outros pensam. Ela acorda todos os dias com medo, muito medo do que está por vir. E cansada. Essa menina indefesa, fraca, ingênua, acorda já indefesa.
Se eu fosse a mulher que eu fui há algum tempo, eu diria pra essa menina esquecer esse negócio de medo, que não nos leva a nada. Diria que ela precisa erguer a cabeça e viver a vida como bem entende, porque o mundo está cagando mesmo pra ela. Fosse eu a mulher que eu já fui, diria para essa menina viver um sentimento de cada vez, e não todos juntos ao mesmo tempo agora. Isso não dá certo, e acaba criando uma confusão, onde o amor, o ódio, a tristeza, a alegria, a saudade e a indiferença acabam se misturando tanto, que você pode magoar pessoas.
Talvez eu devesse dizer pra essa menina idiota que sou, que eu deveria me misturar à mulher segura que fui, e fazer uma mescla. Porque nenhuma de nós duas é auto-suficiente. Nenhuma poderá viver sozinha.
Nenhuma sobreviverá muito tempo sozinha.






