Domingo, 5 de Julho de 2009

Pra sempre

Seguia andando pelas ruas, aparentemente sem rumo, com uma pedra segura e firme na mão direita. O olhar não se desviava, seguia resoluto e confiante num destino certo, de passos firmes, de andar direto. A chuva que começava a incomodar os outros caminhantes parecia nem sequer chegar a tocar sua pele, que ainda exalava o cheiro doce do sabonete, a quentura da água, e de lágrimas de preocupação, de alegria, de medo e de determinação.

A pedra passou da mão direita pra mão esquerda, o olhar baixou para as mãos e sorriu. Quem a visse nas ruas assim, com uma pedra na mão, andar ritmado, já imaginava: era a vingança quem estava comandando sua mente. Quem via de fora, quem olhava a mão fechada sobre a pedra já imaginava o sangue escorrendo, a vidraça estilhaçada, o amor ferido e acabado. E ela riu com esse pensamento, e não fosse a pessoa que era, ensaiaria um passinho à la dançando na chuva.

A chuva apertou, o passo não. A roupa colando no corpo já dificultava a caminhada, mas e daí? Não tinha pressa, porque não tinha como apressar aquele momento. Cada esquina virada, cada rua percorrida, e em todos os momentos lembrava da pedra, destruindo seu espelho e anunciando sete anos de azar. O xingo ["FILHODAPUTADESGRAÇADO!"], correr pra janela pra descobrir quem era o idiota, e a surpresa de ver correndo rua abaixo a silhueta tão conhecida.

É um grito que abafa na garganta, porque a curiosidade venceu toda a raiva. Imaginar o fim, e saber que a pedra simbolizava apenas um começo. Voltar pra realidade e perceber que a chuva apenas deixou a ideia mais clara em sua mente. Deixou a pedra em cima da penteadeira por dez dias. O telefone que não tocou, a campainha que não berrou.

A pedra que não encerraria um assunto, apenas começaria. Ideias desconexas, o fim da chuva, e então ela se vê parada na porta da casa dele. FILHODAPUTADESGRAÇADO. Ela riu; não deixava de ser uma vingancinha. Mas a vida estaria toda pela frente, para a reconciliação.

Pega a meia branca e a caneta preta no bolso, rabisca qualquer coisa na meia, coloca a pedra dentro. Conta as janelas da casa e percebe que vai ter que mirar muito bem para não acertar a janela errada. Olha para os lados, não vem ninguém na rua. Já é noite, e as pessoas estão em casa preparando o jantar e assistindo a novela das oito.

Para. Que vislumbre de vida de merda é esse? Não, definitivamente não seria esse o futuro. Tira a pedra da meia, rabisca mais alguma coisa, coloca a pedra na meia. Dá um giro, dois e arremessa: é como se estivesse nas Olímpiadas, modalidade arremesso de pedra. O dela foi certeiro, medalha de ouro. O estilhaço, vidro quebrando, um grito que vem de dentro da casa. "INFELIIIIIZ!", mas ela já não tá vendo mais nada. Desceu a rua correndo, e sorrindo.

Ele não viu quem era, mas sabia o que era. Um medo do que estava para ler, uma vontade de adiar mais o momento, mas a sorte e a pedra foram lançadas há uma semana.

[você quer ser o meu 'para sempre'?]

A dúvida, o medo e a incerteza rondaram dez dias. Uma pedra que não foi devolvida. A sorte que quebrou sua janela. E explodiu um coração em dezenas de mini-sorrisos.

[Aceito, se você for sempre o meu agora. sem passado e sem futuro.]

Como descobrir que você está ficando velha

- Vá para uma balada.

Eu precisei de apenas UMA HORA para concordar com a nova lei antifumo aqui de SP. Serra, te dedico. E olha que eu sou uma quase ex-fumante. E convivo com muitos amigos que fumam. Não ligo, juro, acho que cada um destrói seu pulmão como bem entende. Eu destruo meu fígado e ninguém reclama.

De qualquer forma, já estive em muitos lugares fechados na minha vida, e com muitas pessoas fumando. Nunca liguei também. Aliás, se tem lugar que eu ATORON é pub. Pub é fechado, e lá as pessoas bebem AND fumam. Muito. Atoron. Mas sexta eu tive um vislumbre de como minha velhice será chata e ranzinza.

Talvez a dose extra de MPB que tocava no lugar [Chopperia Bom Motivo, pra quem conhece os lugares mais estranhos de Sampa], talvez o fato de eu estar ainda gripada, talvez o fato das pessoas DANÇAREM entre as mesas, talvez o fato de ter um mala que queria ser amigo de todo mundo, talvez um outro mala que pede pra deixar a garrafa de ANTARCTICA na nossa mesa [olha, sério... não tenho o que comentar. melhor parte é Marcília toda dygna falando "não"], talvez o fato de agora minhas roupas cheirarem a qualquer coisa que lembre o odor do inferno... tudo isso realmente me fez repensar meus conceitos, e ver que agora eu já não tenho mais idade para certas coisas.

Talvez nunca tive essa idade. Mas eu já suportei melhor as coisas. O que me leva a entender o porquê que eu bebo tanto.

[daí vocês me perguntam, por que caralhos você foi pra esse lugar, sabendo como seria, e estando doente? simples: quando pessoas especiais te pedem alguma coisa, você faz. e é assim que funciona comigo]

Sábado, 4 de Julho de 2009

Espaços vazios

Lembra daqueles exercícios que a professora do terceiro ano te mandava fazer, para preencher a lacuna com a palavra correta? Coisa boba tipo:

- Toda regra tem sua _______________ (ecessão - esseção - exceção).

Tá, talvez o exemplo não seja assim tão bobo, porque afinal muita gente tem dificuldade de escrever exceção corretamente, e eu sou uma dessas pessoas. De qualquer forma, é um exercício bobo e sem graça quando você cresce um pouco, mas que naqueles tempos te ajudou bastante a formar o seu vocabulário. Ou não, mas a intenção foi boa.

Dizem que de boa intenção o inferno tá cheio.

Você tem uma lacuna, e tem opções para preencher essa lacuna. Você tem um espaço vazio, e várias palavras que podem te ajudar a preencher o espaço vazio.

Às vezes o exercício é de lógica, nos cursos que eu faço do meu trabalho tem muito disso.

- Um cliente foi ao banco buscar ________________ (dinheiro - três quilos de carne - sua avó).

Bom, seja de lógica ou de vocabulário, em todos os exercícios envolvendo lacuna, os espaços têm que ser preenchidos. Mesmo que a opção seja "nenhuma das anteriores", o espaço nunca ficará vazio.

A lacuna tem que ser preenchida. Você entende? Você não pode pular esse exercício.

Ninguém pode pular esse exercício.

E no entanto, taí minha lacuna. Preencha o espaço vazio:

- ___________, eu gosto de você.

E a tendência é que eu deixe pra resolver essa questão apenas no final da prova. Como se todas as outras fossem mais fáceis que esta.

Domingo, 28 de Junho de 2009

Tudo

Caminhar apressado quando tá atrasado, tomar café lendo o jornal, acordar e ir direto pro banheiro lavar o rosto, sem nunca enrolar um pouco mais na cama. Ou andar pelas ruas olhando tudo, cada detalhe, cada poste, cada cachorro, cada mulher, homem, criança ou velho.

Assistir um filme sem piscar os olhos, ficar puto da vida quando se perde no caminho, não focar em nada, estar sempre ligado em trocentas coisas ao mesmo tempo. Não perceber um olhar, mas perceber uma voz. Ouve uma música e lembra.

Ter vergonha de pedir, mas quando tem o pedido aceito, faz uma cara de feliz. Um sorriso sincero e uma cara de bravo bem falsa. Um abraço apertado, um ciúme escondido, uma carta rasgada. Um beijo roubado, um encostar das mãos, um olhar trocado e desviado. Ver alguma coisa na rua e na mesma hora ligar pra falar "lembrei de você".

No meio do dia, no meio do trabalho, no meio da reunião importante, o olhar perdido e o sorriso besta por uma lembrança que não existiu. Mas que daria tudo para ter coragem de fazer acontecer.

Não saber absolutamente NADA, e ainda assim, perder todo o chão por conta de alguém do qual se quer saber tudo.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Pé na porta, soco na cara

Me poupe da sua existência.

Thanks!

[inaugurando a nova seção, recados pessoais. Recados sempre bem direcionados, com toda a certeza de que o destinatário vestirá a carapuça e sairá feliz e saltitante, madrugada adentro!]

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

O casamento

- [A noiva sempre se atrasa. Ela não vai desistir do casamento agora. Porra, perguntei pra ela ontem! Falei "sério, se você quer desistir, desiste hoje, não me deixa plantado na igreja esperando, que eu nem igreja tava querendo". E ela disse, eu ouvi perfeitamente, ela disse que nunca desistiria. Então o atraso é o normal. Ansiedade, é a ansiedade batendo, vou me acalmar. Devia ter bebido aquela vodca, eu sabia que deveria ter acabado com a garrafa! Cadê essa fiadaputa?]

- ... e ela tá chegando, ***, tenho certeza, fica sussa que ela tá no caminho, é o trânsito dessa cidade, sabe como é!
- [posso nem pensar sozinho, esse povo já vem, QUE MERDA!] Hein?
- Não, meu filho, fica sossegado que eu sei que minha filha é louca, mas nem tanto, vocês casam hoje e...
- Olha, dona ***, sinceramente, tô preocupado com isso não, tá, é só que eu queria meio que partir pra coisa boa logo, sabe, tipo, A FESTA?
- Cooooooooooooomo você fala uma coisa dessas na casa de Deus, ***? Quer dizer, você quer casar com a minha filha, não é?
- [não, eu paguei essa fortuna só pra beber, AH, ME POUPE!] Claaaro que quero, dona ***, olha, a mãe da noiva num tem que estar lá na porta pra chorar na hora que ela chegar?
- Ah, eu vou sim [esse menino é meio problemático, porque minha filha escolheu ele, ain, coitada!], fica sossegado, meu filho, ela tá vindo, vou porque nem o vestido ela deixou eu ver, imagina só que...
- [melhor é eu fingir que tô escutando com atenção, senão essa velha num sai daqui, INFERNO, cadê a vodca? O *** disse que ia trazer uma garrafinha escondida pro altar, quedê?] É, dona ***, vai lá, ver o vestido em primeira mão!

[...]
- A noiva chegou! Mandou todo mundo esperar aqui dentro da igreja, com as portas fechadas, que ela não sai do carro se tiver alguém lá fora!
- [só falta essa infeliz sair correndo agora, mas já estamos aqui, pelo menos ela tentou, bora acabar com isso] Bom, então, né, minha gente, entrem logo, porque eu quero casar, e vocês querem comer, vamos colaborar!
- [risadinhas nervosas]



[...]

começa a tocar Highway to hell. Claro, todo mundo sabia que ela ia fazer isso, ela sempre disse isso, sempre brincando, mas ninguém se espantou muito com a música. Nem o padre. Afinal, ela pagou por esse mimo, e metade dos que estavam ali presentes nem sabiam o significado daquela música. Mas ele, secretamente, cantava a música na sua mente, lembrando dos tempos de adolescência, bêbado, gritando pelas ruas e cantando "Going down, party time, my friends are gonna be there too"; dispensa os pensamentos, a porta da igreja abriu e...

- OOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

começa a ver pelos pés: ela está de meia, daquelas que separam os dedinhos, preta e branca com desenhos da Betty Boop. O vestido, uma coisa à parte: preto com algumas rendas brancas. O cabelo, pintado de azul celeste, com uma grande tiara preta, com detalhes em branco, formando como uma tiara de flores. As unhas pretas, munhequeiras onde deveriam estar as luvas. Noiva não-convencional. Highway to hell no refrão.

I'm on the highway to hell

- [eu sabia, SABIA que ela ia aprontar alguma coisa louca... ótimo, só falta o padre agora se recusar a celebrar o casamento. Primeiro AC/DC, agora isso. Ele vai sair correndo, eu sei que ele vai sair correndo] Seu ***, o senhor tem que ir lá na frente, pra acompanhar a noiva!
- EEEEEEEUUUUUU??? Acompanhar esse filhotinho de demo que você resolveu se casar???? De jeito nenhum! Eu entro com minha filha vestida de branco na igreja! DESSE JEITO ASSIM?? Nunca!

então a noiva entra sozinha. Passos lentos, pra dar tempo de tocar a música inteira. Vai entrando, sorrindo e acenando para cada amigo, cada cara de espanto, cada olhar de desaprovação. Chega no altar com o mesmo brilho de olhar de qualquer noiva. Mesmo as noivas não-convencionais

- Vestido preto, gata?
- Ahhhh, eu sempre achei lindo, sempre me achei RÍDICULA de branco, então resolvi mesclar um pouco. Vai, você não me escolheu pelo convencional, né?
- Não, mas... preto? Porra, nem um sapato?
- Não, nem um sapato, salto? Vou ficar em pé a festa inteira e você vem me falar de sapato? Bora casar! Padre, pode começar.
- [eu devia cancelar esse casamento. Não, não, ela pagou bem, é só terminar rápido] Estamos aqui reunidos...

ninguém presta atenção ao casamento. Era tudo do jeito que ela sempre tinha falado. As amigas não paravam de rir. Claro que o padre nem se esforçou para chamar a atenção dos convidados, queria que aquilo terminasse logo. E realmente, terminou, dos casamentos mais rápidos que toda a paróquia já havia presenciado: míseros quinze minutos

- BORA PRA FESTA, MACACADA!

[...]

[continua, ou não, depende mais da receptividade de vocês]

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Sol

Eu ia falar que estou com saudades do sol e do calor, ia falar do sol de inverno que me traz um pouco de luz no coração de gelo que bate aqui no meu peito. Ia falar das caminhadas e dos pensamentos, dos pensamentos fixos e dos que viajam ao redor do mesmo problema.

Fixados num problema.

Ia falar que precisava de um dia de sol pra me encorajar.

Ia falar do encontro do sol com a chuva.

Só que, sabe-se lá porque... o sol simplesmente resolveu ir embora. Espero que ele não demore a voltar. Tava gostando do calor e do conforto que ele me trouxe.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Chuva


- Quando você olha através das gotas de chuvas que ficam paradas na janela, sem escorrer e sem evaporar... não parece que o mundo toma um brilho diferente?
- Hein?

Eu não podia nem ter fingido que não ouvi a guria falando. Estava sem meu celular naquele dia, logo sem as músicas que me fazem escapar desse mundo chato e insosso. Estava pregado, claro, e então tudo o que eu queria era dormir. Mas como eu só consegui sentar naqueles bancos do corredor do ônibus, não vou ficar sentado dormindo, com a cabeça pendurada pra fora da cadeira, né? Coisa chata.

Pois bem, como eu dizia, estava pregado. Logo nem reparei na guria ao lado, menos ainda no que ela dizia ou fazia naquele momento. Mas quando parei pra olhar, pasmem: ela brincava com as gotas da chuva que batiam na janela.

- Tem gotas que não saem do lugar, você já reparou? Pode soprar, elas não saem do lugar!
- É... talvez isso aconteça porque você esteja soprando por dentro do vidro.
- Ah, eu sei! Bobo! Sou tão tonta assim, não, né? Mas num é lindo? Se o sol sair, e bater nessas gotas, elas vão ter um brilho maior ainda. Repara.

Essa menina era louca? Ela nunca me viu na vida, e me chamou de "bobo"? Ah, mas vá!

- Você não gosta de conversar com estranhos, né?
- Ahn... eu?
- É que só tem você sentado do meu lado, juro que eu ainda num falo sozinha, pelo menos não no ônibus! Meu nome é ... e o seu?
- Eu sou o ..., prazer.
- Eu também não tenho o costume de falar com pessoas estranhas no ônibus. Mas alguém me disse hoje que eu deveria tentar fazer alguma coisa diferente. Eu tô tão cansada, sabe? Tô tão não querendo ir trabalhar, e esse frio e essa chuvinha convidam a ficar na cama, não é mesmo?
- É... mas...
- Você é casado, ...?

Pausa. Eu nunca entendi muito bem o que as meninas querem quando perguntam se você tem namorada ou afins, mas CASADO? Eu lá tenho cara de casado? Eu tenho aliança, eu pareço tão velho?

- Você acha que eu sou casado?
- Hahahahahaha! Não tenha medo de responder. É que se você for solteiro, ficar na cama sozinho não deve ser legal. Mas se você for casado, deve ser mais difícil ainda de levantar pra ir trabalhar, bom, isso se você amar realmente sua esposa. Você ama sua esposa?
- Hey, garota, calma! Eu não sou casado.
- Ah... que bom!
- ?
- Digo... er... não, digo espero que você encontre alguém para amar. Olha, ali é meu ponto, vou descer, escuta, fica bem, tá? Tenha um dia... brilhante como a chuva no sol!

Eu fiquei no ônibus. Estarrecido e sem saber o que dizer. Eu sabia que aquele não era o ponto dela, eu já a tinha visto várias vezes no ônibus. Mas ela nunca falou comigo, bom, nem eu nunca sentei ao lado dela também.

O cheiro dela me fez bem. E as palavras dela permaneceram em mim.

Quer dizer, olhei depois. Tinham realmente algumas gotas de chuva que não saíam do lugar. Eu soprei, e elas não saíram.

Assim como o olhar não saiu de mim.

[pode continuar... ou não. meu eu lírico masculino tem muita coisa pra falar]

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Seis

Seis meses é metade de um ano.

Em seis meses, um cheque prescreve, quando emitido na mesma praça.

Se você toca um piano todos os dias, ele deve ser afinado a cada seis meses.

Seis meses é o tempo que um palito de fósforo demora para se decompor na natureza.

Na Antártida, tanto o verão quanto o inverno dura seis meses.

Se a gente não exercita aquilo que aprendemos, esquecemos cerca de 90% do aprendizado em seis meses.

Os gatos envelhecem dez anos nos primeiros seis meses de vida.

Sinto que eu envelheci vinte anos nestes seis meses.

São seis meses. Joguem suas cartas.

Sábado, 30 de Maio de 2009

Gimme a break, please

Senta aí, tenho um troço pra te contar. Não é nada grave, nem tem nada a ver com a gente assim. Não faz essa cara, calma! Você vai até rir quando eu te contar. Era pra ser uma coisa meio óbvia, eu até achei que você já sabia, mas pela forma como você vem agindo ultimamente, presumo que você não tem prestado atenção às pessoas, às coisas e ao tempo ao seu redor. Mas não se preocupe, pra isso você tem a mim aqui ao seu lado. Pra te lembrar de coisas simples e óbvias como essa.

Tá de boa? Posso falar? Mas olha, nem faz essa cara que começo a rir! Você com essa cara de preocupação me mata, sério! Tinha que estar com essa preocupação toda antes, não agora. Agora dá pra corrigir ainda, então vamos lá.

Relaxa.

Não, é só isso mesmo. Relaxa.

Você anda correndo, fala correndo, come correndo, olha correndo, se veste correndo, lê correndo, trabalha correndo, estuda correndo, sabe? Como se o mundo fosse desaparecer no segundo seguinte, e não desse tempo de você fazer tudo o que [acha que] precisa fazer. Não. Relaxa.

Digamos que o mundo realmente acabe no segundo seguinte, tá? E daí? Acabou, tá acabado, tenha você feito, dito, lido, comido o que você achasse que realmente tinha importância. Se acabou, acabou, não terá mais volta! Então... pra que correr? É aquela mesma história de correr da chuva, quando a chuva já começou: tá chovendo lá na frente também! Então pra que, me diz? Pra que correr? Aonde você quer chegar, que é tão urgente assim?

Você acha que você precisa ler tudo? Acha que precisa falar tudo? Que todos precisam te ver? Que todos precisam saber que você passou por aqui? Que bobagem!

Pare de correr um pouco e observe. É... para! Para e observa o que tem a sua volta: mesmo você vivendo numa selva de concreto, você há de achar alguma coisa, algum detalhe, que nessa sua correria toda você não percebe. Uma poesia no ar, um cheiro diferente, um olhar diferente. Vai perceber um alguém que passa por você todo dia, que está com você todo dia, que trabalha ou estuda com você todo dia. E na sua correria, você só diz oi e tchau.

Para um pouco. Olha um pouco. Sente o que vive, respira e pulsa perto de você.

Porque o clichê é antigo, é chato, repetitivo [como todo clichê]. Mas é verdade.

Da vida só levamos a vida que levamos